Ponto de Contato | Um campo onde a neutralidade não tem vez, nem voz - por Eliane El Badouy

Artigo

28 Outubro, 2019

Foram muitos conteúdos interessantes trabalhados na edição do Maxi Mídia deste ano. Falou-se sobre a situação econômica do país, diversidade nas agências e nos conteúdos, propósito, causas e compromissos das marcas, mas principalmente, falou-se sobre confiança e credibilidade. 

Este último tema tratado de maneira bastante impactante com a apresentação do Marcio Borges, vice-presidente executivo e diretor geral da WMcCann, no Rio de Janeiro, que mapeou o poder destrutivo dos social bots no painel "Social Bots - Inimigos reais do ativismo de marcas".

E aqui é importante destacar as diferenças existentes entre social bots e chat bots, porque não se trata da mesma coisa. Os Chatbots são os utilizados principalmente no âmbito dos serviços com o objetivo de "facilitar e auxiliar" a vida dos clientes.

Já os social bots são aqueles que atuam em redes sociais, e têm uma função bem menos nobre. São softwares que de forma automática e voraz invadem os espaços amplamente abertos das redes sociais, utilizados principalmente na disseminação de mensagens detratoras. Do mal mesmo. São um fenômeno global, crescente, e por enquanto, totalmente descontrolado, que atinge a todo mundo, quer seja em âmbito pessoal, profissional e no ambiente corporativo, atingindo negócios e marcas.

Marcio ressaltou dois fatores que agravam o quadro hoje. O primeiro é o fato de a credibilidade estar em queda, quanto mais surgem meios de informação. Ou seja, na era do excesso de informação, credibilidade é um recurso escasso. O segundo fator detectado em seus estudos é que hoje não existe mais espaço de moderação para nenhum tema, ou seja, todos os assuntos são tratados, em especial, no ambiente digital, com visões extremadas. Aproveitando-se desse pano de fundo, ideologias, ativistas de causas, hackers digitais sociais, agentes políticos, prestadores de serviço inescrupulosos de empresas, e gente insana em geral, se utilizam dos social bots para disseminar mensagens de viés específico - como disse, usualmente detrator - para desestabilizar reputações, corromper discursos e teses, enviesar conversas e discussões de grupos online, invadindo as redes e se infiltrando em meio a elas de forma viral e contagiosa.

Diante desse cenário extremado, a polarização vigora e a neutralidade e a moderação não têm voz.

Se brand lovers e brand haters ainda são seres humanos que atuam na área do que o Marcio Borges definiu como contágio orgânico - o que ocorre em velocidade de dias e até semanas -, os social bots, sock puppets e trolls agem no campo do contágio artificial, em que uma rede estelar, formada artificialmente, agem em minutos e levam as pessoas a um comportamento de efeito manada já que a sua viralidade é duas vezes maior que a orgânica e é predominantemente negativa.


No quadro a seguir você pode conhecer os 4 tipos clássicos dessa praga digital.




Crédito da imagem: Apresentação Márcio Borges - Maxi Mídia 2019

O viés de polarização e confirmação dos usuários desempenha um papel fundamental na disseminação de informações erradas nas mídias sociais. As pessoas que compartilham notícias falsas experimentam uma sensação de bem-estar semelhante à de usar drogas.

"Quando uma pessoa recebe uma notícia que a agrada, são estimulados os mecanismos de recompensa imediata do cérebro e dão uma sensação de prazer instantâneo, assim como as drogas. Ocorre uma descarga emocional e gera uma satisfação imediata. Isso impulsiona a pessoa a transmitir compulsivamente a mesma informação para que seu círculo de amizades sinta o mesmo. Por isso, há os encaminhadores compulsivos", explica Claudio Martins, psiquiatra e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria em entrevista à BBC News Brasil.

A sensação de euforia causada pelas notícias falsas impede o desenvolvimento de um senso crítico em quem as recebe. É uma forma de "infantilização emocional", que faz com que poucas pessoas se preocupem em checar a origem ou a veracidade da informação. Esse movimento causa uma angústia que leva a pessoa a imaginar que é portadora de uma novidade que deve ser contada com extrema urgência. 
Então, transmite informações não checadas, capazes de gerar uma curiosidade ampliada em outras pessoas, além de um alto nível de identificação e propagação de conteúdo. 
Infelizmente o campo da política e da difamação tem se tornado cada vez mais propício para esse fenômeno. 

Eliane El Badouy Cecchettini, Badu como é conhecida no mercado, é publicitária, professora e coordenadora da Pós-Graduação de Economia Criativa e professora na Pós-Graduação de Neuromarketing da Inova Business School. Seus mais de 30 anos de carreira foram construídos em grandes grupos de comunicação como Editora Abril, Folha de S.Paulo e Sony Enterteniment Television e agências de propaganda. Em sua trajetória profissional atendeu contas como Mc Donald?s, Tetra Pak, 3M, FIAT, CPFL, Souza Cruz, Unilever, Johnson & Johnson, Internacional Paper entre outras. É consultora sênior de Futuro e Tendências da Inova Consulting e pesquisadora do comportamento, mecanismos de atenção e do consumo de mídia do jovem contemporâneo.

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