Cultura e Humanidade | O vilão e a sua saga - por Max Franco

Artigo

25 Outubro, 2019

Joseph Campbell já nos descreveu como ele enxergou, em várias culturas, lendas e épocas, a sequência típica e arquetípica da Jornada do herói. São inúmeros mitos e até  diversas religiões que narram as façanhas de figuras heroicas que são capazes de atos extraordinários e, inclusive, de sacrifícios em prol da coletividade. O herói, a rigor, é aquele que se dispõe a morrer pela própria gente.

É fácil de se compreender, portanto, o motivo que justifica tanta admiração pelos heróis em quaisquer períodos e em tantas comunidades em todo o mundo. Afinal, todo povo tem seus heróis e cada momento da história da humanidade, também. É uma tendência milenar ancorada não só nas mitologias, mas também na psicologia. Afinal, como argumenta Carl Jung, há imagens ancestrais (arquétipos) que estão presentes no inconsciente coletivo da humanidade em qualquer tempo ou lugar.

A humanidade sempre amou seus heróis, desde Aquiles, Ulisses e, certamente, desde antes. O século XXI, porém, tem as suas peculiaridades. Sabe qual é uma delas? O apreço pelo avesso do herói. O amor pelo desamado por excelência. O vilão virou um astro pop. E justamente por esse fenômeno, atualmente, o cachê de um bom bandido pode, facilmente, superar o de uma legião de bem intencionados. O vilão se tornou cool.

Nesse momento, mais uma vez assistimos a  um advento que tem virado coisa das mais comuns. Um dos vilões mais célebres das HQ's ganhou uma longa-metragem para chamar de seu. Pois é, você já deve saber de quem estou falando, do (não mais tão) famigerado Coringa. O arqui-inimigo do Homem-morcego, do vigilante de Gothan City.

Por que vilões são tão populares nas modernidades?

Não é com base científica que eu desenvolvo essa teoria. É - confesso - mero achismo. Mas o vilão é mais livre do que o herói. Ele faz o que quer. Não tem amarras morais, sociais, religiosas, éticas? Ele faz até o que eu e você adoraríamos fazer - e não podemos porque somos decentes, civilizados, regrados. O vilão, em última análise, é a nossa catarse.

O vilão da vez é um dos atores mais festejados de Hollywood: Joaquim Phoenix, o qual consegue emprestar ainda mais complexidades e cores a um dos personagens mais controversos do ideário pop, seguindo a longa tradição de grandes atores que interpretaram o Gênio do mal em produções anteriores. Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto (menos) criaram Coringas que viraram clássicos do universo da ficção.

Phoenix como foi? Genial! Dolorosamente genial. Melhor do que Ledger? Na minha humilde opinião, nem Ledger, caso estivesse vivo, superaria o Ledger daquela ocasião. Mas, excelente! Penosamente excelente!

Mas, é essencial que entendamos a Jornada do Vilão que é mostrada nessa história.

Em "Coringa", podemos acompanhar um angustiante passo a passo da construção de um facínora de larga escala.  O que espanta é que ele demore tanto para sair do armário e se torne o canalha amoral que acaba se tornando. O filme inteiro é um longo "chamado" para uma adesão ao lado obscuro da sua personalidade. Uma adesão sanguinária e histérica que, absurdamente, é só o que falta para o personagem se encontrar e encontrar um propósito dentro do despropósito que é a sua bizarra vida.

O Coringa só parece feliz quando abraça de vez a sua infelicidade e a transforma em pauta para a sua vida. É quase uma apologia à anarquia e um libelo contra a avalanche de individualismo que assola o nosso mundo. "Eu não tenho mais nada a perder mesmo", é o que diz o Coringa com um sorriso aberto. Uma frase que, gravemente, pode definir os nossos tempos e a vida de tanta gente. Um convite à violência? Pode ser. Perigoso? Sim. Talvez.

"Coringa" conta a história de um sujeito desajustado que decide não mais se ajustar ao mundo. É, principalmente, a história de um desgraçado que celebra o caos porque o caos que é bonito. O Coringa é o palhaço que emputeceu com o circo e agora quer vê-lo em chamas. É um cara que está farto, desistiu de tentar ser normal. No enredo, essa atitude serve de inspiração para os demais que também padecem das mesmas agruras. Serviria também como música para os ouvidos de outros marginalizados e excluídos que vivem por aí? Claro que sim. Se entenderem o filme?

"Ninguém liga para caras como eu. As pessoas todos os dias passam por cima e nem me veem.  Já, Thomas Wayne, todos se importam com o que ele pensa ou faz." , não é exatamente esse texto que ele vocifera no fim do filme. Mas é o que ele quer dizer. Ninguém liga. E já que ninguém liga, que se explodam (literalmente!)! É o reino da "desempatia". O Coringa repete várias vezes que não sabia que existia. Quando começou a ter consciência da sua existência? Adivinha! Isso mesmo: quando ele deixa o monstro agir. Quando tira a máscara da civilidade e expõe o verdadeiro rosto maquiado. Oscar Wilde dizia: Dê ao homem uma máscara e ele se tornará quem realmente é. Pois foi o que ocorreu ao Arthur Fleck, ele pôs a máscara e se tornou o que quis ser.

Alguns pensamentos lúgubres me vieram à mente depois do filme. Antes de qualquer coisa, fiquei preocupado com a possibilidade de o filme instigar a ação dos milhões de desgraçados que perambulam por toda a parte. Se esse pessoal tivesse um líder como o Coringa? Não sei.

De uma coisa desconfio: Arthur Fleck seria eleito em 2020.

Joker foi criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane e apareceu pela primeira vez em Batman #1 (Abril de 1940). Entretanto, é algo digno de nota que nada pareça mais típico do século XXI do que um personagem que tem quase 70 anos.

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