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Negócio sem sal enferruja - A Espiral do 7 a 1 - por Raphael Müller

Artigo

15 Fevereiro, 2021

Grande amigo meu, o brilhante advogado Gustavo Almeida de Almeida, certa vez discorreu sobre uma hipotética urucubaca que teria baixado sobre nós: povo brasileiro. É verdade que sempre ouvimos a previsão de que o Brasil seria o país do futuro. Acontece que, mais ou menos, a partir da segunda metade dos anos 1990 até, mais ou menos, a primeira década dos anos 2000... confessa...até deu pra dar uma acreditada que o futuro tinha chegado, vai? 

Estabilidade monetária, controle da inflação, tripé macroeconômico, entrada no ranking das 10 maiores economias do mundo, aumento da escolaridade, combate à pobreza, pleno emprego, entre outras importantes conquistas experimentadas naquele período, nos davam aquela sensação do..."agora vai"!

No entanto, seguindo o caminho da hipotética urucubaca, no dia 8 de julho de 2014, a cidade de Belo Horizonte seria o palco de uma experiência transcendental, que nos levaria a um horizonte definitivamente nada belo. Ninguém previu. Não constava nos astros, nos signos, nos búzios. Tampouco leram antecipadamente em um anúncio, ou viram no espelho, no evangelho ou com os orixás. É amigo...o que se viu naquele dia dificilmente será esquecido. 

Vimos uma legião de guerreiros alemães destroçar um combalido plantel brasileiro. Inacreditavelmente a seleção brasileira de futebol perdia para a alemã pelo placar de 7 a 1 na semifinal de uma Copa do Mundo, em pleno solo tupiniquim. O que poderia ter sido apenas o maior vexame do futebol brasileiro em todos os tempos, era na verdade o início da urucubaca...Explico! Aproximadamente às 17h11 daquele dia, horário do primeiro gol alemão, teria sido aberto um portal em uma dimensão paralela que nos conduziria pelos próximos 90 minutos em direção a uma curva espiral descendente. 

Parece estranho ancorar-se nesta tese. Contudo, basta uma leve e imprecisa revisão histórica dos fatos que vieram a reboque do fatídico 7 a 1, para acreditar que somente um evento, a lá Sobrenatural de Almeida (personagem criado por Nelson Rodrigues, sem nenhum parentesco comprovado com meu amigo Gustavo) seja capaz de explicar.

A partir daquele dia tivemos o agravamento da crise econômica e política que vivíamos, que acabaram sendo a base para mais um traumático processo de impeachment na jovem democracia brasileira. Desemprego crescente, denúncias de corrupção, delações, vazamento de conversa pouco republicana entre um empresário investigado e o chefe do executivo (em uma noite em que todos os gatos eram pardos), assessor do presidente flanando por pizzarias com uma mala cheia de dinheiro, incongruências e indícios de ilegalidade na condução das operações da força tarefa mais longeva e badalada da história do MPF, a ascensão de um intragável personagem do baixo clero parlamentar ao posto de "mito" (capaz de deixar Macunaíma enrubescido e horrorizado) e por fim (será?)...pandemia!

Pra você que está um pouco incomodado com este texto, acreditando que eu ou o Gustavo Almeida somos uns pessimistas incorrigíveis, daqueles que quando veem a luz no fim do túnel são capazes de apostar que é o farol de um caminhão que vem passar por cima do que ainda resta, lhe garanto que não somos assim. Estamos mais para aquela placa que o Presidente Michel Temer disse ter visto em um posto de gasolina, durante as turbulências do seu mandato: "Não fale em crise, trabalhe".
 
No entanto, nestes tempos conturbados, ao conversar com alguns empresários e executivos, confesso que me deparei muitas vezes com uma máscara que tentava passar segurança, mas no interior aparentava mesmo um gestor acuado, fazendo cortes de despesas generalizados e deteriorando a proposta de valor do seu negócio.

Estratégia não é uma camisa tamanho único que se compra em lojas de departamento, portanto não existe o modelito certo para se adotar em momentos de crise. É preciso buscar o modelo adequado ao setor e ao negócio, tendo como premissa as dores, demandas, desejos e necessidades do cliente, que deve ser o ponto central da definição da estratégia.  

Cortar custos é tarefa constante de um gestor comprometido com a eficácia operacional, mas definitivamente não é um pilar da estratégia. Um bom gestor corta custos de maneira precisa, como um jedi e seu sabre de luz, não sem antes avaliar se o seu corte contribui para a longevidade da companhia ou fortalece o lado negro da força ditatorial do quarter

Tenho visto gestores optando por cortar programas de incentivo e de educação continuada, benefícios, qualidade de matéria-prima, investimento em marketing e em promoções de venda. Talvez, com essas iniciativas, seja possível tirar um pouco de água do barco, dando a falsa sensação de equilíbrio. Acontece, que com o tempo as vendas vão cair ainda mais e a limitação de recursos necessários à uma virada construirá a própria espiral descendente da companhia.

Certa vez, o professor, co-fundador e diretor de pesquisa do Penn State´s Institute for the Study of Business Markets, Gary Lilien, respondendo a uma pergunta em um evento do qual participava, afirmou que se a empresa possui um tripé de "habilidade, vontade e capacidade", seus gestores deveriam aumentar custos em época de crise para conquistar novos consumidores e aumentar a retenção dos clientes atuais. Para o professor Lilien, "habilidade" significa excelência no entendimento do mercado, incluindo público consumidor, concorrência e mapeamento de novos players com modelos de negócio mais arrojados. "Vontade" refere-se a uma cultura organizacional corajosa e disposta a ir contra o que parece ser o caminho dominante, caso seja necessário. E "capacidade" é exatamente a disponibilidade de recursos para realizar tais investimentos. 

Mas o que fazer se não tivermos essas características? Então, invista toda a sua energia no aperfeiçoamento da entrega da sua proposta de valor para seus clientes, buscando soluções criativas que os mantenham comprando e satisfeitos com o fato de você e sua empresa continuarem existindo.

Digo e repito para clientes, alunos, colegas e parceiros: encontrar o match perfeito entre as dores dos clientes e a proposta de valor é o caminho para a longevidade das corporações. 

Agora, será que se o Brasil não tivesse tomado aquela coça da Alemanhã em 2014, estaríamos hoje em uma Suíça tropical? A verdade nunca saberemos...           
                               
Até o mês que vem com a nossa próxima pitada de sal!

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O blog "Negócio sem Sal Enferruja" da Inova Business School tem o objetivo de debater assuntos ligados à estratégia corporativa. Caso queira fazer comentários, críticas ou sugestões entre em contato comigo por meio do e-mail [email protected]