Ponto de Contato | É hora de hackear o departamento de mídia. - por Eliane El Badouy

Artigo

28 Julho, 2019

Quando novos players começam a atacar nosso negócio de todos os lados, a resposta é mais complicada do que "adaptar-se ou morrer". É preciso aplicar uma abordagem de "disrupção de dentro" do próprio negócio antes que a concorrência nos force a fazê-lo. Isso porque o errado é fazer o mesmo certo durante muito tempo. Para qualquer mudança, muitas vezes é preciso destruir o velho para o novo poder nascer. Via de regra as pessoas acham as alterações desconfortáveis e muitas não estão dispostas a mudar até que seja tarde demais. 

Há algum tempo ouvimos histórias incríveis de inovação disruptiva e como a cultura de inovação, acompanhada de metodologias ágeis, vêm transformando significativamente os negócios como um todo. Normalmente, esta "ousadia" é atribuída à startups ou empresas menores. Entretanto, na edição do ProXXIma deste ano tive a oportunidade de acompanhar a apresentação de cases da Nestlé, Coca-Cola e Ambev e como esses seus núcleos de inovação estavam agindo como hackers do seu próprio negócio.

Para empreendedores, inovadores e pessoas que mudam o jogo, a disrupção bem-sucedida é o objetivo final. Se você quiser disruptar sua indústria ou a concorrência, no entanto, você provavelmente terá que hackear seu próprio negócio primeiro.

Ao longo do tempo, e em decorrência de eventos recentes, nos acostumamos a pensar em hackers como alguma coisa marginal e do mal, que invade sistemas em busca de algum tipo de vantagem. Mas se pararmos para pensar na essência do conceito, o hacker é na verdade alguém que conhece tão bem alguma coisa que ele consegue uma forma criativa e diferenciada de usar essa coisa. Usando uma comparação feita pelo Marcelo Tas, Jimmy Hendrix era um hacker da guitarra. Ele conhecia tão bem aquele instrumento que o hackeou, usando como ninguém a criatividade para tocá-lo, provocando uma verdadeira disrupção.

Deste ponto de vista ser um hacker significa remover todos os filtros e expandir a mente, abrindo os olhos para enxergar um mundo maior que o seu. 
Alguns insights a partir da leitura de Hacker How To, escrito por Eric S. Raymond, um dos porta-vozes do software livre e autor do livro "A Catedral e o Bazar". 

Curiosidade, provavelmente, seja a porta de entrada para o mundo dos hackers: um desejo quase incontrolável de investigar, de entender algo. Durante a infância, muitos quebravam os próprios brinquedos, apenas para descobrir como eles funcionavam. Desmontavam partes, encaixavam com pedaços de outros brinquedos, modificavam, criavam algo novo. Desta forma adquirimos um conhecimento muito mais amplo do funcionamento das coisas e sistemas, possibilitando a exploração de falhas.

O hacker precisa se sentir desafiado, instigado a prosseguir com a ação. Muitas vezes essas pessoas agem somente por agir, para perceberem que algo é possível e que eles conseguem fazer. Hackers gostam de resolver problemas e, quanto mais complexos esses problemas, melhor. Diga a um hacker que algo é impossível de ser feito e ele vai tentar até conseguir.

O gosto pela liberdade é o que move os Hackers. Eles gostam de explorar os limites de tecnologias e não querem ficar limitados ao uso imposto pela indústria ou fabricante de um dispositivo. Afinal, parte da cultura hacker diz respeito a construir algo. Trata-se de construir uma cultura onde as convenções são constantemente questionadas: onde os inovadores que possuem pensamentos diferentes não são apenas aceitos, mas também celebrados. Uma cultura que se baseia em princípios de informalidade, modelos alternativos de governança e maior participação.

Será que já não é hora de hackear o departamento de mídia? Porque como bem disse Albert Einstein "Insanidade é fazer sempre a mesma coisa várias e várias vezes esperando obter um resultado diferente."

Eliane El Badouy Cecchettini, Badu como é conhecida no mercado, é publicitária, professora e coordenadora da Pós-Graduação de Economia Criativa da Inova Business School. Seus mais de 30 anos de carreira foram construídos em grandes grupos de comunicação como Editora Abril, Folha de S.Paulo e Sony Enterteniment Television e agências de propaganda. Em sua trajetória profissional atendeu contas como Mc Donald?s, Tetra Pak, 3M, FIAT, CPFL, Souza Cruz, Unilever, Johnson & Johnson, Internacional Paper entre outras. É consultora senior de Futuro e Tendências da Inova Consulting e pesquisadora do comportamento, mecanismos de atenção e do consumo de mídia do jovem contemporâneo.

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