Negócio sem sal enferruja - Parem as máquinas por Raphael Müller

Artigo

13 Novembro, 2020

O bordão do título desta coluna é muito conhecido no universo jornalístico. Criado pelo grande Roberto Avallone, uma lenda do jornalismo esportivo brasileiro, criador de mais uma penca de bordões conhecidíssimos do grande público, o "parem as máquinas" faz referência a uma notícia bombástica que poderia surgir exatamente quando a edição do jornal do dia seguinte estava começando a ser impressa, e neste momento o diretor de redação gritava a tal expressão para que as rotativas fossem pausadas e os editores pudessem fazer a inclusão da reportagem.

O mundo todo vem acompanhando, sem entender patavinas do que acontece, o imbróglio que se tornou a eleição do 47º presidente dos EUA. É Democrata pra um lado, Republicano pra outro, delegado prá lá, fake news prá cá...enfim uma confusão jamais vista e definitivamente impensável na terra da Apple, Microsoft, Google, o Vale do Silício todo...e a gente vendo uma galera contando os votos nos estados como se estivéssemos na década de 1980.

E eis que Green Bay, uma pequenina cidade com pouco mais de 100 mil habitantes no estado de Wisconsin, norte dos EUA, chamou a minha atenção no meio de tantas outras matérias muito mais importantes na cobertura do maior evento político do ano.

Em um determinado momento da apuração eleitoral, estados como Arizona, Geórgia, Nevada, Pensilvânia e Wisconsin, passaram a atrair a atenção de todos, pois ainda não tinham finalizado as suas contagens de votos. É aí que entra a tal da Green Bay. A contagem de votos na cidadezinha foi interrompida e estava atrasada...pasmem...PORQUE ACABOU A TINTA DA IMPRESSORA...(até que me senti um pouco desenvolvido, porque volta e meia, nesta quarentena, isso também aconteceu aqui em casa).     

Ora, meus amigos! Se isso pode acontecer, não seria o caso de ter um cartucho reserva desta bendita impressora? Afinal de contas, não se trata da impressão dos trabalhos de escola das minhas crianças, mas sim da eleição do mandatário mais importante do mundo! No entanto, na ausência da óbvia redundância, a turma preferiu soltar o bordão "Parem as Máquinas" e interromper a contagem dos votos.     

O que aconteceu em Green Bay é um erro de execução tão primário que nem parece que a cidade é a sede dos Packers, time multicampeão da NFL - Liga de futebol americano. Acontece que a execução é muitas vezes a etapa dos projetos em que os gestores mais falham colocando toda uma estratégia acertada e um planejamento bem organizado em risco.

Peter Drucker, sempre foi um fanático pela execução. Inclusive, na sua visão, execução não significa somente realizar, mas sim realizar as coisas certas e na maioria das vezes para fazer a coisa certa é preciso descartar uma série de outras opções. Nos dias de hoje, gestores que não conseguirem renunciar a negócios que foram lucrativos no passado, apesar dos sinais de bolor e de inadequação com o tempo presente, serão totalmente responsabilizados pela má execução e pelo desempenho enfadonho da companhia no futuro.

No final do ano de 2003, o editor e escritor americano Jeffrey Krames foi recebido na casa de Peter Drucker para uma rara entrevista. Segundo Krames, o pai da administração moderna apresentou-se extremamente lúcido e com a mente afiadíssima, apesar do peso dos seus 94 anos e da saúde muito frágil. O encontro acabou dando origem ao livro "A Cabeça de Peter Drucker" (editora sextante) onde Jeffrey Krames descreve, entre outras ideias visionárias sobre gestão e negócios, o que Drucker entendia como possíveis barreiras para que os gestores tivessem uma execução eficaz:

 

· Abrir mão de fazer renúncias conscientes.

o É papel de um gestor avaliar frequentemente o desempenho de sua estratégia, seus produtos, serviços e equipe e ao identificar que existe qualquer descompasso que coloque em risco a execução, não se eximir de fazer rapidamente as mudanças necessárias.

 

·         Conviver com o excesso de burocracia e níveis hierárquicos

o   Decisões são feitas para serem tomadas e não para nos servirem de assento. O excesso de burocracia e os castelos hierárquicos são um prato cheio para deixar as coisas paradas.

· Ausência de valores e mecanismos operacionais eficazes

o Empresas eficazes possuem declarações de missão, visão e valores que refletem a sua cultura organizacional, que por sua vez deve ser voltada para uma cultura de aprendizado, orientada a resultados, com um claro senso de propósito e totalmente centrada no cliente.

· Estrutura gerencial inadequada

o E aqui...aspas para Drucker: "A estrutura certa não garante resultados, mas a estrutura errada impede que eles sejam alcançados. Acima de tudo, ela deve ser tal que enfatize resultados verdadeiramente significativos.".

· Ausência de estratégia clara ou falta de comunicação desta estratégia

o A indefinição de uma estratégia clara, compreensível e absorvida por todos na companhia é o primeiro e mais visível sinal de uma corporação em apuros. Afinal de contas como diz a piada, se você já errou de prédio qualquer andar serve.

Como gestores, não temos tempo de "parar as máquinas" na tarefa de domar as rédeas de nossa estratégia e colocar um plano de negócios nos trilhos. Esse alinhamento depende sobretudo da nossa capacidade de ultrapassar as barreiras impostas à uma execução eficaz. Ah...e antes que eu me esqueça, um conselho aos americanos: aprendam sobre processo eleitoral conosco. Pelo menos neste quesito, temos uma execução impecável.     

Até o mês que vem com a nossa próxima pitada de sal!    

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O blog "Negócio sem Sal Enferruja" da Inova Business School tem o objetivo de debater assuntos ligados à estratégia corporativa. Caso queira fazer comentários, críticas ou sugestões entre em contato comigo por meio do e-mail [email protected]